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Sáb Jan 9 03:32:42 BRST 2016

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......@@ -43,7 +43,7 @@ Também foi demonstrado que o surgimento de máquinas de fabricação digital de
### 1.3 Definições de liberdade e abertura de conhecimento
São diversas as definições e declarações que foram criadas para se referir à liberdade do conhecimento. É adequado afirmar que a raiz filosófica que embasa os atuais movimentos de cultura livre e abertura do conhecimento remonta ao movimento Software Livre e ao projeto GNU[^GNU], iniciado por Richard Stallman na década de 80. Stallman definiu *software* livre [^SL] em Fevereiro de 1986 e esta definição é mantida atualmente pela Free Software Foundation. Stallman também escreveu a primeira licença de *software* livre, a General Public Licence [^GPL]. Fica entendido que
São diversas as definições e declarações que foram criadas para se referir à liberdade do conhecimento. É adequado afirmar que a raiz filosófica que embasa os atuais movimentos de cultura livre e abertura do conhecimento remonta ao movimento Software Livre e ao projeto GNU[^GNU], iniciado por Richard Stallman na década de 80. Stallman definiu *software* livre [^SL] em Fevereiro de 1986 e esta definição é mantida atualmente pela Free Software Foundation. Stallman também escreveu a primeira licença de *software* livre, a General Public Licence [^GPL]. Fica entendido que:
> Por “*software* livre” devemos entender aquele *software* que respeita a liberdade e senso de comunidade dos usuários. Grosso modo, **os usuários possuem a liberdade de executar, copiar, distribuir, estudar, mudar e melhorar o *software***. Assim sendo, “*software* livre” é uma questão de liberdade, não de preço.
Em 5 de Julho de 1997 a comunidade de desenvolvedores da distribuição GNU/Linux Debian ratificou orientações Debian para Software Livre [^DEBIAN] especificando os critérios para o *software* livre que é aceito na distribuição. Mais tarde as orientações Debian para *software* livre foram utilizadas como base para a definição de *software* de código aberto (*open source definition*) [^OSD], buscando utilizar linguagem mais amena para maior disseminação do termo em meios mais conservadores. Richard Stallman apontou que o termo *software* de código aberto deve ser evitado [^OSD_Misses], enquanto Bruce Perens explicou como se deu esta definição em um capítulo do livro "*Open Sources: Voices from the Open Source Revolution*" (PERENS, 1999).
......@@ -61,7 +61,7 @@ A Definição de obras culturais livres [^FREEDOMDEFINED] foi inicialmente apres
* a **liberdade de fazer cópias e distribuí-las**, em todo ou em parte, da informação ou expressão;
* a **liberdade de fazer mudanças e melhoramentos**, e de distribuir obras derivadas.
Esta definição é de caráter geral e expande as quatro liberdades fundamentais do *software* livre (SL) definidas por Richard Stallmann para todas as obras culturais fruto do intelecto humano. Cronologicamente, surgiu após a definição de SL, porém, conceitualmente pode ser pensada como a definição mais fundamental, sendo que definições que tratam de áreas específicas podem ser vistas como adequações desta. Um exemplo é a definição de *hardware* aberto e livre, que envolve o projeto e construção de objetos tangíveis, materiais, com suas características dificuldades específicas.
Esta definição é de caráter geral e expande as quatro liberdades fundamentais do *software* livre (SL) definidas por Richard Stallmann para todas as obras culturais fruto do intelecto humano. Cronologicamente, surgiu após a definição de SL, porém, conceitualmente pode ser pensada como a definição mais fundamental, sendo que definições que tratam de áreas específicas podem ser vistas como adequações desta. Um exemplo é a definição de *hardware* aberto e livre, que envolve o projeto e construção de objetos tangíveis, materiais, com suas características e dificuldades específicas.
#### 1.3.2 A definição de Hardware Aberto e Livre (HAL)
......@@ -86,7 +86,7 @@ São comuns as ilustrações das novas dinâmicas produtivas exemplificadas pela
O próximo passo na construção colaborativa refere-se à construção colaborativa e distribuída de objetos tangíveis. Enquanto os computadores pessoais suprem a infraestrutura física para a colaboração distribuída para o desenvolvimento de *software* e textos, a infraestrutura necessária para o desenho colaborativo e fabricação distribuída de instrumentos e equipamentos físicos ainda é precária.
Atualmente o desenvolvimento de HAL seguindo os princípios da declaração é bastante limitado devido à carência de "processos padrões, infraestrutura aberta, conteúdo irrestrito, e ferramentas de desenho livres" apropriadas para esta finalidade. Além destes aspectos técnicos, boas práticas de registro e documentação também não estão bem estabelecidas, sendo um atual desafio cultural a ser superado para atingir uma maior prosperidade no desenvolvimento de *hardware* aberto e livre. O CTA está atuando para viabilizar ou ampliar as possibilidades de desenvolvimento de *hardware* que siga mais profundamente os princípios estabelecidos na definição de *hardware* aberto e livre, atuando nos pontos mais carentes apontados acima.
Atualmente, o desenvolvimento de HAL seguindo os princípios da declaração é bastante limitado devido à carência de "processos padrões, infraestrutura aberta, conteúdo irrestrito, e ferramentas de desenho livres" apropriadas para esta finalidade. Além destes aspectos técnicos, boas práticas de registro e documentação também não estão bem estabelecidas, sendo um atual desafio cultural a ser superado para atingir uma maior prosperidade no desenvolvimento de *hardware* aberto e livre. O CTA está atuando para viabilizar ou ampliar as possibilidades de desenvolvimento de *hardware* que siga mais profundamente os princípios estabelecidos na definição de *hardware* aberto e livre, atuando nos pontos mais carentes apontados acima.
No que se refere ao *software* utilizado para projetar o *hardware*, este surge explicitamente na declaração dos princípios, copiada acima, onde aponta que as '''ferramentas de desenho devem ser livres'''. A segunda referência ao *software* é indireta. Pode-se ler na primeira seção da definição as orientações sobre os formatos dos arquivos da documentação do projeto, onde são indicados formatos que possam ser modificados e codificados em formatos abertos. Neste caso, a indicação ao *software* livre que trata do formato aberto é indireta, mas também presente. O desenvolvimento de infraestrutura aberta para o desenho de fabricação de *hardware* livre e aberto é uma das linhas de ação do CTA, como descrita na seção 2.
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## 6. Considerações Finais
A declaração de HAL idealiza que "_*hardware* de código aberto utiliza componentes e materiais facilmente acessíveis, processos padrões, infraestrutura aberta, conteúdo irrestrito, e ferramentas de desenho livres para maximizar a possibilidade dos indivíduos fazerem e utilizarem o *hardware*_". Porém a carência de infraestrutura aberta e ferramentas de desenho livres limitam as possibilidades de criação de *hardware* de acordo com os princípios de abertura. Esta é uma deficiência que reduz o alcance e o impacto de iniciativas que buscam popularizar a fabricação digital e que podem até prejudicam o entendimento do que efetivamente é HAL.
A declaração de HAL idealiza que "_*hardware* de código aberto utiliza componentes e materiais facilmente acessíveis, processos padrões, infraestrutura aberta, conteúdo irrestrito, e ferramentas de desenho livres para maximizar a possibilidade dos indivíduos fazerem e utilizarem o *hardware*_". Porém a carência de infraestrutura aberta e ferramentas de desenho livres limitam as possibilidades de criação de *hardware* de acordo com os princípios de abertura e liberdade. Esta é uma deficiência que reduz o alcance e o impacto de iniciativas que buscam popularizar a fabricação digital e que podem até prejudicam o entendimento do que efetivamente é HAL.
Um exemplo de popularização dos meios de fabricação digital e distribuída são os chamados FabLabs, laboratórios de fabricação, que contam com máquinas de fabricação digital tais como fresadoras de controle numérico computadorizado, impressoras 3D entre outras máquinas para execução de projetos. É uma iniciativa interessante que, por um lado, visa a aproximação entre instrumentos de prototipagem e produção e as pessoas interessadas, aumentando e difundindo a cultura da produção de *hardware* ou cultura Maker, por outro, conta com equipamentos de elevado custo financeiro, que também perpetua a necessidade de uso dos *softwares* proprietários que os acompanham, dificultando a criação *hardware* e sua documentação que esteja alinhado com a definição de HAL. Este modelo colabora (negativamente) para a carência de padrões de arquivos e programas livres para desenho e modificação de projetos uma vez que propagam e disseminam ferramentas proprietárias e infraestrutura fechada em meio à cultura Maker. Além disso, não é garantido que um projeto desenvolvido em um determinado *software*/*hardware* proprietário poderá ser adaptado ou construído em outro equivalente. É aqui que os pontos de infraestrutura aberta, padrões abertos e software livre, presentes nas definições do *hardware* aberto e livre, se fazem importantes, pois é com eles que qualquer projeto poderá, em princípio, ser portado sem maiores dificuldades. São os pontos que estimulam/viabilizam a criação de comunidades de usuários e desenvolvedores de HAL.
Um exemplo de popularização dos meios de fabricação digital e distribuída são os chamados FabLabs, laboratórios de fabricação, que contam com máquinas de fabricação digital tais como fresadoras de controle numérico computadorizado, impressoras 3D entre outras máquinas para execução de projetos. É uma iniciativa interessante que, por um lado, visa a aproximação entre instrumentos de prototipagem e produção e as pessoas interessadas, aumentando e difundindo a cultura da produção de *hardware* ou cultura maker, por outro, conta com equipamentos de elevado custo financeiro, que também perpetua a necessidade de uso dos *softwares* proprietários que os acompanham, dificultando a criação *hardware* e sua documentação que esteja alinhado com a definição de HAL. Este modelo colabora (negativamente) para a carência de padrões de arquivos e programas livres para desenho e modificação de projetos uma vez que propagam e disseminam ferramentas proprietárias e infraestrutura fechada em meio à cultura maker. Além disso, não é garantido que um projeto desenvolvido em um determinado *software*/*hardware* proprietário poderá ser adaptado ou construído em outro equivalente. É aqui que os pontos de infraestrutura aberta, padrões abertos e *software* livre, presentes nas definições do *hardware* aberto e livre, se fazem importantes, pois é com eles que qualquer projeto poderá, em princípio, ser portado sem maiores dificuldades. São os pontos que estimulam/viabilizam a criação de comunidades de usuários e desenvolvedores de HAL.
O Centro de Tecnologia Acadêmica do IF/UFRGS tem atuado no desenvolvimento da infraestrutura aberta que eventualmente viabilizará a construção de FabLabs realmente livres. Faz isso pela promoção do conceito da bancada dos hiperobjetos e o desenvolvimento de máquinas de fabricação digital que a compõe, a exemplo da Fresadora PCI João-de-barro.
Isto surge no ambiente universitário e também no ensino básico através do CTA Jr, onde são promovidas as ferramentas e práticas para potencializar a expansão do conhecimento acadêmico é realizada pela apropriação das ferramentas utilizadas por projetos colaborativos e distribuidos bem sucedidos. Utilizamos estas ferramentas para organizar a execução e para documentar projetos que façam uso
O CTA se alia ao Colégio de Aplicação da UFRGS para atuar além do ambiente universitário, alcançando também o ensino básico através do CTA Jr, onde também são aplicados os conceitos de liberdade e abertura do conhecimento. promovidas as ferramentas e práticas para potencializar a expansão do conhecimento acadêmico. Para atingir os objetivos de organização e documentação de projetos, os participantes do CTA se empoderaram das ferramentas utilizadas por projetos colaborativos e distribuidos bem sucedidos. Destacamos projetos de infraestrutura, como a Fresadora PCI João-de-Barro, projetos de ensino de engenharia, programação e aquisição de dados através dos Shields Amplificador de Instrumentação e Arduino básico e projetos de ciência cidadã através do projeto das Estações Meteorológicas Modulares.
Por fim, também promovemos empreendedorismo aberto através de projetos que são livres para serem distribuidos sem discriminação, inclusive comercializados. Isto abre novas possibilidades para os estudantes utilizarem os materiais e métodos com os quais tem contato durante os cursos. Mais do que isso, através de projetos e práticas de pesquisa e desenvolvimento que estão de acordo com os princípios de abertura, e do desenvolvimento de infraestrutura e de práticas organizacionais/institucionais alinhados, semeamos no ambiente acadêmico a cultura da abertura e da liberdade na expansão do conhecimento, que consideramos essenciais para atualizar a academia nos modos de produção e circulação do conhecimento e da cultura.
*** Agradecimentos ***
O Centro de Tecnologia Acadêmica é parcialmente financiado pelo CNPq.
Manifestamos nossa gratidão aos integrantes do CTA, Béuren Bechlin, Flavio Depaoli, Paulo Müller, Diogo Friggo Panda, Germano Postal, Alisson Claudino, Nelso Jost, Guilherme Weihmann, Leonardo Brunnet, Sebastian Gonçalves, Gabriel Krieger, Lucas Leal, Gilberto Fetzner Filho e todes demais que participaram e colaboraram desde a fundação do CTA, que são muitos para serem listados aqui, motivo pelo qual somos ainda mais gratos.
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__Referências:__
......@@ -23,16 +28,12 @@ BENKLER, Yochai. The wealth of networks. How social production transforms market
BJÖRK, Bo-Christer. Two Scenarios for How Scholarly Publishers Could Change Their Business Model to Open Access.Disponível em:http://quod.lib.umich.edu/cgi/t/text/idx/j/jep/3336451.0012.102/--two-scenarios-for-how-scholarly-publishers-could-change?rgn=main;view=fulltext. Acesso em: 28 dez. 2015.
BRABHAM, Daren (2008). "Crowdsourcing as a Model for Problem Solving: An Introduction and Cases" (PDF),Convergence: The International Journal of Research into New Media Technologies 14 (1): 75–90,doi:10.1177/1354856507084420. Disponível em: <http://con.sagepub.com/content/14/1/75>. Acesso em: 03 nov. 2015.
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
CHESBROUGH, Henry. Why Companies Should Have Open Business Models. Disponível em:http://sloanreview.mit.edu/article/why-companies-should-have-open-business-models/. Acesso em: 26 dez. 2015.
ENKEL,Ellen. Open R&D and Open Innovation:exploring the phenomenon. Disponível em: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1467-9310.2009.00570.x/pdf. Acesso em: 27 dez. 2015.
ESTELLÉS-AROLAS, Enrique; GONZÁLEZ-LADRÓN-DE-GUEVARA, Fernando (2012), "Towards an Integrated Crowdsourcing Definition" (PDF), Journal of Information Science 38 (2): 189–200,doi:10.1177/0165551512437638: Disponível em: <http://jis.sagepub.com/content/38/2/189.full.pdf+html>. Acesso em: 03 nov. 2015.
FERREIRA, Edy.How Companies Make Money Through Involvement in Open Source Hardware Projects. Disponível em: http://timreview.ca/node/228. Acesso em: 30 dez. 2015.
JONES, R.; HAUFE, P.; SELLS, E., IRAVANI, P., OLLIVER, V., PALMER, C., ; BOWYER, A. RepRap - The Replicating Rapid Prototyper, Robotica. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. v.29, p.177-191.
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# O Centro de Tecnologia Acadêmica: princípios e perspectivas
Acreditamos que, a fim de suprir as necessidades atuais da humanidade sem prejudicar as gerações futuras, é preciso que se desenvolva uma cultura de ampla colaboração e de continuidade do conhecimento. Por isso, o Centro de Tecnologia Acadêmica do Instituto de Física da UFRGS (CTA IF/UFRGS) foi criado com base nos princípios da cultura livre, utilizando e desenvolvendo conhecimento e tecnologias livres e abertas. Estas são tecnologias onde os usuários possuem as liberdades de seu uso, estudo, modificação e distribuição, garantindo autonomia no aprendizado, no uso, no desenvolvimento e na disseminação dessas tecnologias. Este artigo justifica a escolha das tecnologias livres e abertas e das práticas relacionadas, apresentando como as possibilidades de criação, uso e disseminação do conhecimento geradas pela tecnologia digital, que embasam a cultura digital, estão sendo utilizadas e aprimoradas no CTA IF/UFRGS.
Acreditamos que, a fim de suprir as necessidades atuais da humanidade sem prejudicar as gerações futuras, é preciso que se desenvolva uma cultura de ampla colaboração e de continuidade do conhecimento. Por isso, o Centro de Tecnologia Acadêmica do Instituto de Física da UFRGS (CTA IF/UFRGS) foi criado com base nos princípios da cultura livre, utilizando e desenvolvendo conhecimento e tecnologias livres e abertas. Estas são tecnologias onde os usuários possuem as liberdades de seu uso, estudo, modificação e distribuição, garantindo autonomia no aprendizado, no uso, no desenvolvimento e na disseminação dessas tecnologias. Este artigo justifica a escolha das tecnologias livres e abertas e das práticas relacionadas, apresentando como as possibilidades de criação, uso e disseminação do conhecimento geradas pela tecnologia digital, que embasam a cultura digital, estão sendo utilizadas e aprimoradas no CTA IF/UFRGS.
Iniciamos com uma breve reflexão sobre os impactos das tecnologias digitais na circulação da informação, do conhecimento e da cultura e apontamos os benefícios dos conceitos de liberdade e abertura do conhecimento aplicados à ciência, tecnologia e educação. Em seguida apresentamos o *hardware* aberto e livre (HAL) como o passo eminente na evolução do desenvolvimento colaborativo de tecnologias. Fazendo uma análise dos conceitos, apontamos para a infraestrutura e metodologias que consideramos necessárias para viabilizar o desenvolvimento colaborativo de instrumentos científicos e educacionais abertos em escala até então vista apenas em projetos de bens imateriais como a Wikipédia e o sistema operacional GNU/Linux.
Descrevemos como estes conceitos são integrados como princípios no Centro de Tecnologia Acadêmica visando a atualização da academia nos modos de produção, gestão e disseminação do conhecimento. Por fim, apresentamos alguns exemplos de instrumentos abertos desenvolvidos no CTA, juntamente com reflexões sobre o papel que os princípios adotados pelo Centro têm para a formação dos alunos e o impacto que seus projetos podem ter na sociedade pela integração natural com a pesquisa e extensão universitárias.
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